Contrariando a premissa que temos de não discutir questões relacionadas a violência, desta vez quebraremos o silêncio, mas não vamos discutir os últimos homicídios ou os atentados contra o patrimônio, que vão desde o simples roubo de um celular (chamo de simples, porque faz parte do cotidiano de todas as classes sociais) até o assalto a mansões, bancos ou empresas. Vamos falar da violência instaurada em nosso imaginário como uma solução a todos os problemas.
A violência tem tomado conta dos principais meios de comunicação do país, através de diversas notícias, artigos, matérias, crônicas, cartoons, charges, quadrinhos, desenhos animados, filmes, novelas, literatura, música, etc... Mas, afinal, porque estamos tão intimamente ligados a violência? Até mesmo um acidente que envolva veículos, sem nenhuma vítima, chama muita atenção, enquanto nem sempre uma inauguração de centro cultural ou escola são celebradas da mesma forma.
O Brasil foi forjado na violência, diretamente ligada a uma aristocracia medieval, que trouxe muitos costumes absurdos e adicionou alguns novos, tais como a escravização de povos de outras etnias, como índios ou africanos. Em resposta, a rebelião para a liberdade também estava ligada a violência, algumas vezes como vingança ou justiça (chame como quiser) e noutras, simplesmente para garantir que não fossem novamente perseguidos. A origem pode ser essa, mas a persistência desta violência até os dias de hoje não pode ser explicada dessa forma.
Alguns fatos apontam que alguns governos estaduais têm abandonado as práticas violentas, como foi o caso da ocupação da Rocinha. Pessoalmente estava preocupado com essa situação, principalmente por envolver vidas de pessoas que, quase sempre, não estão envolvidas diretamente com essa guerra ligada ao tráfico de drogas. Os principais meios de comunicação enviaram muitos jornalistas e todo um aparato para a cobertura de uma guerra e, por outro lado, as forças policiais e militares enviaram, literalmente, um aparato de guerra. Entretanto, o resultado foi outro, e a ocupação ocorreu sem disparos. Não sei ao certo se a ocupação é o melhor caminho, mas de uma coisa tenho certeza: se ela ocorrer, é melhor que ninguém morra - nem policia, nem ladrão e muito menos a população, que durante anos foi forçada a conviver com uma guerra em frente à porta de sua casa. Se me perguntassem sobre uma imagem que em minha opinião exemplifique a violência, me arriscaria a indicar esse vídeo que foi reproduzido muitas vezes na televisão, inclusive nos noticiários que “entretém” as nossas tardes: a imagem mostrava um helicóptero perseguindo e fazendo disparos consecutivos contra dois jovens que trajavam apenas bermudas. Todos os narradores (que pude ver e ouvir) informavam que eram bandidos que haviam disparado contra o helicóptero, porém, o que se via eram dois jovens assustados em fuga, descendo em desespero por um grande barranco fugindo de disparos de rifles e fuzis. E o pior aconteceu. Os jovens não foram presos e julgados por um tribunal, foram cruelmente assassinados (Se quiser confira as imagens no link 1). Ao ver os fatos da atual ocupação da Rocinha à distância, parece que a política de combate ao crime, e não aos seres humanos, está mudando no Rio de Janeiro. Mas nada disso terá efeito sem mudanças estruturais nos morros, ou seja, a urbanização promovida nos últimos anos, se bem feita, pode quebrar paradigmas e acabar com a guerra que os moradores são obrigados a vivenciarem todos os dias.
Em contraposição a isso, as forças policiais de São Paulo deram uma resposta absurda a ocupação da reitoria da USP (não vou discutir se as ações dos estudantes tem fundamento ou não), o que se viu foi um circo armado para tomar o prédio a força, com arrombamentos e tudo o que é necessário para se criar um verdadeiro “circo” na operação. Aproximadamente 73 alunos estavam nessa reitoria, o que acredito que poderia ser desocupada com o uso de apenas um negociador. Não lembro de nenhum meio de comunicação noticiar ou discutir se o Estado tentou negociar uma liberação do prédio de forma pacifica. As forças policiais deveriam cumprir o que a justiça determinou, mas a saída não foi pacifica, e sim violenta em demasia. Mas a USP não é caso isolado, acompanhei algumas ações da policia que utilizava armamentos “não letais” (que consistem em bombas de gás e espingardas calibre 12 equipadas com projeteis de borracha) para tentar desobstruir áreas ocupadas por manifestantes, ou em um processo de reintegração de posse: o que se vê muitas vezes são abusos, como policiais removendo identificações, já premeditando atos violentos (Confira no link 2).
Analisar como as forças policiais agem consiste é um direito e dever de toda a sociedade. As analises devem ser feitas sem nenhum tipo de emoção, mas o Estado não promove estas discussões da mesma forma que discute os orçamentos de outras áreas. A segurança pública nunca teve o dever de apenas assegurar a ordem e a segurança para que os governantes possam governar, sendo que o maior objetivo é proteger a sociedade, incluindo pessoas que cometem delitos, pessoas que querem discutir políticas públicas, pessoas que vivem dentro de terrenos irregulares, usuários de drogas, etc. Em nenhuma parte da constituição brasileira, nem tampouco nas leis específicas, existe alguma menção ao direito das forças policiais em executarem pessoas, ou agir de forma violenta. Infelizmente, na prática a sociedade muitas vezes pede por ações deste tipo, influenciada principalmente pela violência promovida por certos apresentadores de TV, filmes americanos, e algumas pessoas que não compreendem o dever das forças de segurança.
As periferias brasileiras presenciaram muitos abusos e muitas vezes se acostumam com práticas absurdas por serem traídas por estas forças. Desta forma, levará muito tempo para que as forças policiais sejam compreendidas e descubram seu verdadeiro papel, que é proteger as leis e, sobretudo, a vida humana. Nem mesmo os Direitos Humanos são entendidos corretamente, principalmente por não serem divulgados. Constantemente presencio pessoas falando que os direitos humanos permitem que a violência exista, mas assegurar direitos como a vida, a igualdade entre as pessoas, o direito ao trabalho, a educação, assistência médica, a liberdade de expressão ou a um julgamento justo é uma forma de aumentar a violência?
A redução da violência está intimamente ligada à cordialidade, que está ausente, algumas vezes, até em momentos de lazer como num simples jogo de futebol praticado por amigos, que muitas vezes termina em briga pelo excesso de preocupação com o resultado do jogo. Temos que levar a cordialidade e a preocupação com o outro a um patamar superior, para que se torne um traço de nossa cultura. Que mostre que os brasileiros estão preocupados com seus irmãos e muito menos com o dinheiro que vem dentro de aviões estrangeiros, sejam com os grandes eventos internacionais, ou com os grandes empresários. Tenho certeza que se o Brasil se empenhar em cumprir o primeiro artigo da Declaração Universal dos Direitos Humanos haveria uma redução drástica na violência: “Todos os seres humanos nascem livres e iguais em dignidade e em direitos. Dotados de razão e de consciência, devem agir uns para com os outros em espírito de fraternidade”.
Link 1 (Policiais do BOPE e do CORE perseguindo e executando supostos bandidos)
http://www.youtube.com/watch?v=N_TeUPJCXt8
Link 2 (Policiais militares removem suas identificações pessoais para conter a população)
http://www.flickr.com/photos/marcuskawada/5497013799/in/photostream
Link 3 (Declaração Universal dos Direitos Humanos) http://www.ohchr.org/EN/UDHR/Documents/UDHR_Translations/por.pdf
terça-feira, 20 de dezembro de 2011
Civilidade pelos Civis
Muito se fala, não à toa, de uma tal Sociedade Civil, por tempos esquecida. A sociedade, principalmente a nossa, brasileira, finalmente tomou a frente de suas próprias ações, em movimento que parece trazer de volta tons de dignidade a sua própria existência.
As afirmações acima não entoam em jargões políticos, mas em fatos reais. Pensar isso como verdade é, acima de tudo, refletir como está mudando a relação entre Estado e população. Há uma constatação urgente nisso tudo: Essa mudança ocorre, em primeira instância, das pessoas para o governo; e não o contrário.
Baseando-se na história recente do país, basta pensar nas diferenças que marcam a participação da sociedade nos processos de transformação da realidade: Há menos de 25 anos atrás estávamos saindo de uma ditadura política; passamos por incríveis dificuldades econômicas em meados dos anos 90 e hoje, apesar de todos os efeitos da corrupção, da desigualdade social e etc., colhemos alguns dos bens que “plantamos” durante as nossas vidas. Avaliando, por exemplo, ações provindas de ONGs em terras nacionais, vemos que, apesar de grande número delas oferecerem remunerações aquém do mercado, não há indícios de queda na criação delas – Pelo contrário, houve um impressionante aumento de 1180% (mil cento e oitenta por cento!) de 2002 a 2006.
Vivemos num país que, infelizmente, não nos oferece ferramentas o suficiente para eliminarmos as absurdas disparidades econômico-sociais vigentes desde os tempos coloniais. Em controvérsia, algumas possibilidades de mudança têm chegado à população, como é o caso da internet. Em um bom uso deste veículo comunicacional é possível ganhar voz perante muros que nos foram impostos tempos atrás. As redes sociais tanto já glorificaram como determinaram a queda de muitos.
Outro fenômeno relevante é a ascensão do empreendedor individual em solo tupiniquim. Segundo o SEBRAE, o número de empreendedores individuais formalizados já soma 1,5 milhões no país. É o recorde, com significado que pode ir além de um parâmetro econômico: O brasileiro quer se desprender de sua macro-dependência, apesar de ainda ser refém de uma burocracia questionável.
Certamente, visto o cenário descrito, o que impulsiona a grande maioria destes números e mudanças é a expansão da classe C, que encontra-se majoritariamente nas periferias. Mas há algo que precisamos dominar, apoderar-nos de forma positiva: O conhecimento. Está nele a chave da transformação.
De acordo com a agência WMcCann, nos dez últimos anos a internet tornou-se o principal meio de informação do brasileiro. Entretanto, 90% do uso atribuído a ferramenta destina-se a entretenimento. Apenas 21% de sua utilização está ligada a “Provocar Mudanças”. Os livros devem ser mais presentes e as bibliotecas mais “requeridas”.
Outro ponto pouco explorado na demarcação do poder civil é a ocupação dos espaços públicos. Acostumamos-nos a identificá-los como de propriedade de um grupo ou outro. “Essa praça é dos punks... Aquela é dos emos... A outra é dos skatistas...”. Não é. É nossa. É de todo mundo e não de um grupo específico. É deles também. A TV também é nossa, assim como tudo aquilo que não pertence legalmente a um cidadão especifico.
Em suma, estamos mais perto de exercer a civilidade. Mas o caminho nos cobra mais postura, mais sentimento de inclusão, mais compaixão, mais tolerância e auto-estima.
As afirmações acima não entoam em jargões políticos, mas em fatos reais. Pensar isso como verdade é, acima de tudo, refletir como está mudando a relação entre Estado e população. Há uma constatação urgente nisso tudo: Essa mudança ocorre, em primeira instância, das pessoas para o governo; e não o contrário.
Baseando-se na história recente do país, basta pensar nas diferenças que marcam a participação da sociedade nos processos de transformação da realidade: Há menos de 25 anos atrás estávamos saindo de uma ditadura política; passamos por incríveis dificuldades econômicas em meados dos anos 90 e hoje, apesar de todos os efeitos da corrupção, da desigualdade social e etc., colhemos alguns dos bens que “plantamos” durante as nossas vidas. Avaliando, por exemplo, ações provindas de ONGs em terras nacionais, vemos que, apesar de grande número delas oferecerem remunerações aquém do mercado, não há indícios de queda na criação delas – Pelo contrário, houve um impressionante aumento de 1180% (mil cento e oitenta por cento!) de 2002 a 2006.
Vivemos num país que, infelizmente, não nos oferece ferramentas o suficiente para eliminarmos as absurdas disparidades econômico-sociais vigentes desde os tempos coloniais. Em controvérsia, algumas possibilidades de mudança têm chegado à população, como é o caso da internet. Em um bom uso deste veículo comunicacional é possível ganhar voz perante muros que nos foram impostos tempos atrás. As redes sociais tanto já glorificaram como determinaram a queda de muitos.
Outro fenômeno relevante é a ascensão do empreendedor individual em solo tupiniquim. Segundo o SEBRAE, o número de empreendedores individuais formalizados já soma 1,5 milhões no país. É o recorde, com significado que pode ir além de um parâmetro econômico: O brasileiro quer se desprender de sua macro-dependência, apesar de ainda ser refém de uma burocracia questionável.
Certamente, visto o cenário descrito, o que impulsiona a grande maioria destes números e mudanças é a expansão da classe C, que encontra-se majoritariamente nas periferias. Mas há algo que precisamos dominar, apoderar-nos de forma positiva: O conhecimento. Está nele a chave da transformação.
De acordo com a agência WMcCann, nos dez últimos anos a internet tornou-se o principal meio de informação do brasileiro. Entretanto, 90% do uso atribuído a ferramenta destina-se a entretenimento. Apenas 21% de sua utilização está ligada a “Provocar Mudanças”. Os livros devem ser mais presentes e as bibliotecas mais “requeridas”.
Outro ponto pouco explorado na demarcação do poder civil é a ocupação dos espaços públicos. Acostumamos-nos a identificá-los como de propriedade de um grupo ou outro. “Essa praça é dos punks... Aquela é dos emos... A outra é dos skatistas...”. Não é. É nossa. É de todo mundo e não de um grupo específico. É deles também. A TV também é nossa, assim como tudo aquilo que não pertence legalmente a um cidadão especifico.
Em suma, estamos mais perto de exercer a civilidade. Mas o caminho nos cobra mais postura, mais sentimento de inclusão, mais compaixão, mais tolerância e auto-estima.
A Sociedade do Kirisute Gomen
Certa vez, em meio a pensamentos sobre o que somos e o que podemos ser, fui levado para um tempo passado, porém intenso e extremamente presente nos dias atuais. Trata-se de uma lei samurai chamada “Kirisute Gomen”. E você deve perguntar: O que isso tem haver comigo? Parece difícil raciocinar sobre isso, mas não é tanto. “Kirisute Gomen” dava a um samurai o poder de eliminar com sua espada qualquer um das castas mais baixas que não o respeitasse.
Na verdade os meus pensamentos não se iniciaram nos samurais. Começaram a partir de uma visão que temos nas ruas, nas casas, nas escolas... Hoje não se usa a espada e nem se mata com proteção da lei (será?). Mas digam-me: Quantas vezes destroem-nos sonhos e tiram-nos as condições de sermos felizes? Quantas vezes cerceiam o amor presente nas coisas simples, substituindo-o por valores inerentes a sociedade – Tais como ganância, status, vaidades e prazeres imediatos e extremamente passageiros?
A sociedade moderna nasceu muito antes do qualquer um dos que lêem este texto. E ela, sem que nos doa tanto, determina caminhos, trabalha silenciosa em arquivos confidenciais com acesso a poucos privilegiados. Mostra-te o que quer mostrar. Mata lentamente, sem que sejam ouvidos os gritos. Divide-nos entre o conforto de ver tudo pela janela e o inferno das ruas.
Voltando ao “Kirisute Gomen”, lembro-me que os samurais faziam parte de uma casta que estava abaixo da nobreza e dos senhores feudais. Eles eram parte de uma máquina. Te remete a algo?
Persisto, apesar de tudo. O amor existe, de forma sutil. Por vezes numa São Paulo que não é vista. E é isso que leva o Criolo, com toda a razão e segurança, a dizer que “Não Existe Amor em SP”. É o amor que leva o Ferréz a disparar palavras de indignação no mais apaixonado dos protestos. Os saraus levam marmanjos às lágrimas por amor. As donzelas da periferia andam de moto, usam capacetes e são mais apaixonantes do que as princesas de almas tão vazias, como “flores mortas”.
A cultura que prega o domínio do mais forte se aplica ao jogo violento. Jogo de aparências. Jogo da rebeldia sem causa. Jogo do “siga o mestre”. Jogo corporativista. Kirisute Gomen
“Não acredito que um indivíduo possa progredir espiritualmente, enquanto aqueles que o cercam estão sofrendo” dizia Gandhi. É por isso, veja, por isso é que o Criolo diz que não existe amor em SP. Progredir espiritualmente é a porta para a uma felicidade “maior”. Fruto do Amor. Amor que não é só o “doce”. Amor que nos move.
A luz no fim do túnel marca presença nessa história do “Kirisute Gomen”. Foram os samurais que eliminaram, posteriormente, aos seus superiores. Assumiram o poder. E desapareceram através dos tempos...
Na verdade os meus pensamentos não se iniciaram nos samurais. Começaram a partir de uma visão que temos nas ruas, nas casas, nas escolas... Hoje não se usa a espada e nem se mata com proteção da lei (será?). Mas digam-me: Quantas vezes destroem-nos sonhos e tiram-nos as condições de sermos felizes? Quantas vezes cerceiam o amor presente nas coisas simples, substituindo-o por valores inerentes a sociedade – Tais como ganância, status, vaidades e prazeres imediatos e extremamente passageiros?
A sociedade moderna nasceu muito antes do qualquer um dos que lêem este texto. E ela, sem que nos doa tanto, determina caminhos, trabalha silenciosa em arquivos confidenciais com acesso a poucos privilegiados. Mostra-te o que quer mostrar. Mata lentamente, sem que sejam ouvidos os gritos. Divide-nos entre o conforto de ver tudo pela janela e o inferno das ruas.
Voltando ao “Kirisute Gomen”, lembro-me que os samurais faziam parte de uma casta que estava abaixo da nobreza e dos senhores feudais. Eles eram parte de uma máquina. Te remete a algo?
Persisto, apesar de tudo. O amor existe, de forma sutil. Por vezes numa São Paulo que não é vista. E é isso que leva o Criolo, com toda a razão e segurança, a dizer que “Não Existe Amor em SP”. É o amor que leva o Ferréz a disparar palavras de indignação no mais apaixonado dos protestos. Os saraus levam marmanjos às lágrimas por amor. As donzelas da periferia andam de moto, usam capacetes e são mais apaixonantes do que as princesas de almas tão vazias, como “flores mortas”.
A cultura que prega o domínio do mais forte se aplica ao jogo violento. Jogo de aparências. Jogo da rebeldia sem causa. Jogo do “siga o mestre”. Jogo corporativista. Kirisute Gomen
“Não acredito que um indivíduo possa progredir espiritualmente, enquanto aqueles que o cercam estão sofrendo” dizia Gandhi. É por isso, veja, por isso é que o Criolo diz que não existe amor em SP. Progredir espiritualmente é a porta para a uma felicidade “maior”. Fruto do Amor. Amor que não é só o “doce”. Amor que nos move.
A luz no fim do túnel marca presença nessa história do “Kirisute Gomen”. Foram os samurais que eliminaram, posteriormente, aos seus superiores. Assumiram o poder. E desapareceram através dos tempos...
A espera de um milagre
Estamos cá, outra vez, à beira de outro verão no hemisfério sul. O que esperar deste período? Depende. Pode ser o sol escaldante que lota piscinas e praias durante as férias dos “abonados”. Ou, quem sabe, o transtorno de sempre causado por enchentes homéricas. Preste atenção no termo “sempre”. Você conhece essa história?
É inevitável, ao mesmo tempo imprescindível, notar o descaso do poder público para com a situação. Uma matéria da “Carta Capital” nos trouxe um ponto crucial para o entendimento sobre a falta da intervenção dos governos para prevenção às enchentes: “... o prefeito Gilberto Kassab (PSD) admitiu que as demais intervenções previstas no Orçamento deste ano ficarão para 2012. Segundo dados da execução orçamentária atual, a reserva de recursos mencionada por Kassab alcança apenas 22% do total previsto para o combate às enchentes na capital. Dessa verba, só 8,3% foram gastos efetivamente - ou R$ 57,1 milhões de um total de R$ 683 milhões”. As informações são do jornal “O Estado de S. Paulo”.
Em complementação, não nos choca, mas reforça a dura realidade, o conteúdo do estudo “Vulnerabilidades das Megacidades Brasileiras às Mudanças Climáticas”, publicado por pesquisadores do INPE, IPT, UNESP, UNICAMP e USP. Um dos principais pontos da abordagem nos traz a seguinte perspectiva: “As maiores vulnerabilidades associadas a perdas humanas (durante o período de enchentes) localizam-se nos bairros periféricos, enquanto as maiores vulnerabilidades associadas a perdas econômicas e materiais se dão nos bairros consolidados”. Outro dado apontado pelo estudo é o que diz que, na zona sul, os locais que apresentam as piores condições de estrutura para encarar enchentes nos próximos anos incluem os distritos do Jardim Ângela, Capão Redondo e Campo Limpo.
Concentrando-nos ao referido acima, é óbvio que o fenômeno das enchentes não se refere apenas a “excesso de chuvas”. Trata-se de uma questão estrutural, que historicamente foi deixada de lado – Afinal, existe uma enorme disparidade entre os níveis de estruturação entre bairros ocupados pela elite paulistana e os demais. Para se ter idéia, o governo estadual (de José Serra) gastou mais com publicidade em 2009 do que a prefeitura gastou entre 2006 e 2009 com obras anti-enchentes.
É bom lembrar que o fator mais relevante para que aconteçam os sucessivos desastres causados pelas enchentes refere-se a inoperância dos governos ao não formular políticas públicas para suprir à necessidade de moradia da população, que acaba ocupando áreas como várzeas e encostas (Altamente vulneráveis às chuvas). E o pior vem a seguir: É prevista uma piora sensível nos efeitos desse fenômeno, já que, a partir de um aquecimento global progressivo, haverá também um aumento na ocorrência de chuvas intensas. Para 2030, considerando a área de expansão de nossa região metropolitana, é esperado que aproximadamente 11,17% das novas áreas urbanizadas poderão se constituir em novas áreas de risco de deslizamentos.
As enchentes causam outros problemas não contabilizados, como a proliferação de doenças infecciosas tais como parasitas intestinais, dengue e leptospirose. Além das marcas nas paredes, as fortes águas das chuvas também marcam as vidas de todos os envolvidos nos incidentes: no ano passado foram mais de 12 mil pessoas desalojadas no Estado de São Paulo, sendo que mais de 2500 ficaram desabrigadas. Deixar para depois as ações que minimizam os riscos pode ser comparado a deixar um doente no hospital e esperar por sua morte.
Fonte: http://www.inpe.br/noticias/arquivos/pdf/megacidades.pdf
http://www.cartacapital.com.br/sociedade/enchentes-o-descaso-publico-que-constroi-o-cenario-do-desastre
As cores da juventude
Vivemos em um mundo que tenta nos confundir: a cada esquina uma nova informação, a cada cruzamento uma confusão. Como podemos decidir que caminho tomar sem ao menos ter a certeza de que é o caminho correto? Acredito que esta deve ser uma dúvida constante nos corações e mentes de jovens, adultos, idosos e crianças. Mas a história mostra que, quase sempre, os jovens indicam os caminhos que as próximas gerações devem trilhar. Para mostrar como surgem algumas mudanças na sociedade é que escrevo este texto.
No dia 3 de abril de 2011, um grupo de 12 grafiteiros foi preso por pintar as pilastras de sustentação da linha azul do metro da cidade de São Paulo, no trecho que se entende desde a estação Armênia até a estação Santana. Seria um fato comum se estes jovens artistas tivessem tentado evitar a policia e a justiça, se protegendo de complicações pessoais e uma ficha criminal. Mas a atitude foi de acompanhar os policiais a delegacia, e contatar um jornalista da Folha Online e contar o ocorrido. (Confira a notícia da Folha: http://migre.me/5SQXB )
Recentemente li um texto chamado: “A revolução não partirá do vão livre do Masp”, escrito por um jornalista da revista Carta Capital chamado Matheus Piconelli. Neste texto, o autor aponta uma característica crescente em manifestações públicas de nossa cidade: a falta de foco nas manifestações públicas. Mas apesar da triste realidade retratada pelo texto, alguns aprendizados ficaram em minha mente - é necessário ter preparação, foco e saber em qual terreno se pisa antes de se manifestar. (Confira o texto da Carta Capital: http://migre.me/5SQYG)
Você deve se perguntar: Mas o que existe em comum nas manifestações públicas que beiram o absurdo e a prisão destes grafiteiros? A explicação é simples - ambas as ações foram de contestação a questões incômodas da sociedade. Entretanto, os grafiteiros haviam se preparado durante anos trabalhando em suas obras, vivenciando a dura realidade de quem tenta sobreviver da arte e, principalmente, conhecendo de perto uma legislação que transforma artistas em contraventores ou criminosos. A preparação foi o diferencial; eles tinham em mente os riscos que estavam correndo ao expor suas obras nestes pilares e tinham se preparado para o pior, que de fato aconteceu: foram presos.
Mas a prisão destes jovens foi apenas o começo de uma mudança. O Governo do Estado de São Paulo e o Metro de São Paulo tiveram que intervir devido às noticias e às discussões que foram levantadas através delas. O que no início era feito apenas para substituir o “cinza” das pilastras, com formas e cores que estavam em suas mentes, pouco a pouco se transformava em uma mudança política. O secretario de Cultura, Andrea Matarazzo, entrou em cena e iniciou uma discussão com os artistas, e, por fim, criou na semana passada o 1º Museu de Aberto de Arte Urbana deste país. (Confira o vídeo do Jornal da Gazeta: http://migre.me/5SR0k )
No mês de maio deste ano conversei informalmente com um dos artistas detidos, o grafiteiro Ricardo AKN sobre o que havia ocorrido. Pouco a pouco levantamos questionamentos sobre como a internet permitiu aos moradores da periferia conseguir obter informações que antes não estavam a nossa disposição. AKN era um otimista, defendia que as pessoas hoje não podem mais ter conhecimentos limitados e que as informações estão disponíveis para todos. Eu não concordava com sua opinião e afirmava que nem todos recebiam uma base para aprender a buscar estas informações. O fato é que essas possibilidades de obter conhecimento na década de 90 não existiam e algumas pessoas das periferias entendem esta diferença e se motivam a estudar formalmente, ou se desenvolver a partir do conhecimento disponível da internet. Mas Ricardo deu um exemplo importantíssimo para qualquer morador da periferia de São Paulo, e principalmente para seu distrito, o Jardim Ângela - que o conhecimento e a preparação podem levar alguns indivíduos a transformar uma realidade inaceitável em um mundo melhor.
Parabéns AKN e a todos os grafiteiros que colorem as ruas desta cidade cinza!
Para quem quer conferir as obras de perto, aqui vai o endereço: Av. Cruzeiro do Sul, nº 1100 até 3100
No dia 3 de abril de 2011, um grupo de 12 grafiteiros foi preso por pintar as pilastras de sustentação da linha azul do metro da cidade de São Paulo, no trecho que se entende desde a estação Armênia até a estação Santana. Seria um fato comum se estes jovens artistas tivessem tentado evitar a policia e a justiça, se protegendo de complicações pessoais e uma ficha criminal. Mas a atitude foi de acompanhar os policiais a delegacia, e contatar um jornalista da Folha Online e contar o ocorrido. (Confira a notícia da Folha: http://migre.me/5SQXB )
Recentemente li um texto chamado: “A revolução não partirá do vão livre do Masp”, escrito por um jornalista da revista Carta Capital chamado Matheus Piconelli. Neste texto, o autor aponta uma característica crescente em manifestações públicas de nossa cidade: a falta de foco nas manifestações públicas. Mas apesar da triste realidade retratada pelo texto, alguns aprendizados ficaram em minha mente - é necessário ter preparação, foco e saber em qual terreno se pisa antes de se manifestar. (Confira o texto da Carta Capital: http://migre.me/5SQYG)
Você deve se perguntar: Mas o que existe em comum nas manifestações públicas que beiram o absurdo e a prisão destes grafiteiros? A explicação é simples - ambas as ações foram de contestação a questões incômodas da sociedade. Entretanto, os grafiteiros haviam se preparado durante anos trabalhando em suas obras, vivenciando a dura realidade de quem tenta sobreviver da arte e, principalmente, conhecendo de perto uma legislação que transforma artistas em contraventores ou criminosos. A preparação foi o diferencial; eles tinham em mente os riscos que estavam correndo ao expor suas obras nestes pilares e tinham se preparado para o pior, que de fato aconteceu: foram presos.
Mas a prisão destes jovens foi apenas o começo de uma mudança. O Governo do Estado de São Paulo e o Metro de São Paulo tiveram que intervir devido às noticias e às discussões que foram levantadas através delas. O que no início era feito apenas para substituir o “cinza” das pilastras, com formas e cores que estavam em suas mentes, pouco a pouco se transformava em uma mudança política. O secretario de Cultura, Andrea Matarazzo, entrou em cena e iniciou uma discussão com os artistas, e, por fim, criou na semana passada o 1º Museu de Aberto de Arte Urbana deste país. (Confira o vídeo do Jornal da Gazeta: http://migre.me/5SR0k )
No mês de maio deste ano conversei informalmente com um dos artistas detidos, o grafiteiro Ricardo AKN sobre o que havia ocorrido. Pouco a pouco levantamos questionamentos sobre como a internet permitiu aos moradores da periferia conseguir obter informações que antes não estavam a nossa disposição. AKN era um otimista, defendia que as pessoas hoje não podem mais ter conhecimentos limitados e que as informações estão disponíveis para todos. Eu não concordava com sua opinião e afirmava que nem todos recebiam uma base para aprender a buscar estas informações. O fato é que essas possibilidades de obter conhecimento na década de 90 não existiam e algumas pessoas das periferias entendem esta diferença e se motivam a estudar formalmente, ou se desenvolver a partir do conhecimento disponível da internet. Mas Ricardo deu um exemplo importantíssimo para qualquer morador da periferia de São Paulo, e principalmente para seu distrito, o Jardim Ângela - que o conhecimento e a preparação podem levar alguns indivíduos a transformar uma realidade inaceitável em um mundo melhor.
Parabéns AKN e a todos os grafiteiros que colorem as ruas desta cidade cinza!
Para quem quer conferir as obras de perto, aqui vai o endereço: Av. Cruzeiro do Sul, nº 1100 até 3100
A classe C ganha “espaço” nas páginas do caderno de negócios do Estadão.
Após uma série de transformações na sociedade, a classe C começa a ser o alvo de pesquisas de consumo. Conhecido como target nas campanhas publicitárias, o público alvo das empresas tem mudado de forma - antes com cara de nobreza, em que o trabalho e a história de vida eram irrelevantes - agora se transforma em historias de superação e trabalho coletivo.
As agências de publicidade descobriram nesse novo target uma possibilidade de incremento de vendas, e, para tal, estudam formas de fazer a classe C consumir mais. O jornal O Estado de São Paulo desta segunda-feira, dia 03/10, mostra uma notícia sobre a pesquisa feita pela agencia de propaganda AlmapBBDO, que tenta encontrar um novo perfil da Classe C.
Como era de se esperar, o inicio da pesquisa foi feita a partir de um morador do distrito do Capão Redondo - o copeiro Hamilton - que na matéria não possui sobrenome e tampouco imagem. Ao contrário, a foto que estampa a matéria de meia página é a da equipe que produziu o estudo.
Na pesquisa, a agencia derrubou alguns mitos, tais como: a classe C não assiste só novela e o Ratinho (eles finalmente entenderam isso!), ela está no Facebook (e em todas as outras redes sociais) , e que ela consome enlatados americanos como o Doutor House (A Record passar o Doutor House é coincidência?), e por fim, eles descobriram que publicidades de varejo, onde os “atores-vendedores” aparecem berrando não são bem vistas.
Estes estudos apontam uma característica muito interessante: Mostram que as classes dominantes nunca ouviram as pessoas que as cercam e muito menos as convidaram para participar das criações. Estes anos sem comunicação fizeram com que a classe C, D e E se transformassem em meros consumidores, sem que fossem ao menos consultados sobre o que queriam consumir.
Estes aspectos mostram que as empresas não conhecem seus consumidores e, muitas vezes, criam produtos e propaganda de forma completamente equivocada. Depois se queixam de que os níveis de audiência caem ou que seus produtos encalham nas prateleiras. Isso tudo “porque a classe C costuma consumir produtos criados para as classes A e B”... Isso não é uma verdade e nem uma mentira completa. Criar produtos ou programas pensando em estereótipos faz com que estes produtos não sejam direcionados a ninguém, ou melhor, apenas para aqueles que se vêem desta forma estereotipada.
Recentemente, a fabricante de meias e roupas intimas “Hope” lançou uma campanha publicitária com a “top model” Gisele Bündchen, onde ela ensina as mulheres brasileiras a darem “notícias ruins” aos seus maridos. A campanha indica que a forma correta de se dar más notícias ao cônjuge é com a mulher em trajes íntimos sensuais. Depois de muita polêmica a publicidade foi retirada do ar. Entretanto, o absurdo disso tudo é uma publicidade com uma pessoa conhecida mundialmente tratar as mulheres como dependentes dos homens e terem como principal atributo de defesa o apelo sexual.
Com tudo isso, continuamos a pensar que o copeiro Hamilton não possui sobrenome e tampouco um rosto... E imaginarmos que a televisão realmente tenta levar entretenimento para as pessoas, e, principalmente, que as empresas realmente se importam com o consumidor, seja ele de qualquer classe social.
Link para a notícia do Estadão: http://www.estadao.com.br/noticias/impresso,menos--barulho-e-mais-estilo-na-classe-c--,780579,0.htm
Link para a publicidade da Hope: http://www.youtube.com/watch?v=RekIsfOkZC8
sexta-feira, 16 de setembro de 2011
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